Diante de crescentes casos de rapazes que desrespeitam suas próprias namoradas e que ainda as expõem nas redes sociais com requintes de crueldade, tenho me perguntado cada vez mais: Como evitar que o meu filho, hoje com quatro anos e antes aquele bebê tão fofinho e sorridente da minha memória, se torne um adolescente insensível às mulheres?

A luta pelo empoderamento feminino é necessária, mas fico pensando que talvez esta luta precise ao mesmo tempo de um outro tipo de empoderamento masculino que se encaixe com a evolução da mulher.  Que torne meninos e meninas mais parceiros nas suas igualdades e diferenças.

Os garotos observam atentamente como os seus pais tratam as suas mães e irmãs, como seus tios tratam suas tias, como seus avôs tratam suas avós. E como seus amigos tratam as suas amigas.

Que trilhas estamos oferecendo aos meninos no tortuoso caminho para se tornarem homens?

Afinal, do que os nossos meninos precisam no mundo de hoje?

Meninos precisam ser aceitos com toda a sua energia motora, precisam receber colo para as suas emoções, precisam poder brincar de guerra e de luta, precisam poder chorar sem sentir vergonha, precisam ter a liberdade de cuidar com carinho de uma boneca ou de um amiguinho. Meninos precisam se movimentar mais em sala de aula. Precisam poder escrever e desenhar de pé, se assim preferirem. Precisam de mais tempo de recreio. E de mais atividades manuais. Meninos precisam de video games que brinquem também com as emoções. Precisam de uma figura masculina com a qual possam se conectar emocionalmente de forma profunda. Precisam de firmeza sem brutalidade. Precisam de uma figura feminina que seja capaz de cuidar, mas também de se desapegar quando o seu rapaz se lançar nas aventuras da vida. Meninos precisam abraçar e ser abraçados. Meninos precisam sentir na pele a delicadeza do que é ser cuidado com amor.

É desta forma que, aos poucos, eles vão desenvolvendo e exercitando um dos mais poderosos direitos e deveres do ser humano: o de cuidar.

Os meninos de hoje serão maridos que cuidarão de suas esposas, pais que cuidarão dos seus bebês e filhos que cuidarão de seus próprios pais na delicada jornada para o fim da vida.

Muitas vezes parece que à medida que um menininho vai crescendo vamos tirando dele a possibilidade de aprender a cuidar.

Dos outrosE de si mesmo.

Alguns homens conseguem lindamente exercitar o ato de cuidar e de se colocar no lugar do outro. Mas talvez a maioria deles vai se desconectando das suas próprias emoções para se encaixar no que a sociedade equivocadamente tem esperado deles há tempo demais: que sejam fortes.

Sempre.

A falta de consciência sobre as próprias emoções e de contato com o sofrimento são portas de entrada para inúmeras situações de risco. Os homens encabeçam as estatísticas por envolvimento e morte relacionados à violência, alcoolismo e acidentes de trânsito. Especialmente os jovens.

Aos 16 anos eu perdi meu único irmão, quatro anos mais velho, em um acidente de carro. Até hoje me pergunto: Será que se ele tivesse se cuidado melhor ele teria lido os sinais de perigo ao pegar carona com um amigo que não estava em condições de dirigir?  Será que se ele estivesse mais em contato consigo mesmo e com a sua intuição ele teria entrado naquela que seria a sua última carona?

Como podemos criar homens que cuidam de si mesmos e dos outros se não estamos deixando os nossos meninos exercitarem o ato de cuidar?

Nós, adultos, precisamos oferecer para eles formas mais eficazes e criativas de aprendizado sobre o mundo dos sentimentos, sobre o universo feminino, sobre a empatia e sobre as diferentes maneiras de cuidar.

Sem preconceitos.

M de macho e de masculino é o mesmo M de mãe e de mulher.

Neste alfabeto complexo das relações humanas meninos precisam urgentemente aprender as letras do coração.

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Imagem: Bansky